PARA A HISTÓRIA DA CULTURA EM SESIMBRA

castelo de sesimbra

Por volta dos anos 70, do século passado já se vê, o castelo de Sesimbra tinha como seu senhor um grande solitário que, como todos que sabem envolver-se de mistério no silêncio e na solidão, atraía irresistivelmente a visitá-lo todos quantos, “ansiosos de espírito”, tinham notícia dele. Por ali passaram a conversar com Rafael Alves Monteiro poetas, pintores, filósofos, toda a espécie de “extravagantes” e também muita mulher bonita. De todas, a mais belamente mágica e a mais inteligente foi Natália Correia. Trouxe consigo a habitual corte de admiradores e apaixonados.

Ali esteve muitas vezes António Carlos Carvalho. E ali vinha, sempre que visitava Portugal, o famoso filósofo francês Georges Gusdorf. Trouxeram-no Orlando Vitorino e José Marinho, seus companheiros na procura da “substantífica medula” do mundo. Lembrarei outros nomes prestigiados: Lima de Freitas, António Quadros, Afonso Botelho, Francisco Sottomayor, Almada Negreiros e Agostinho da Silva, todos já falecidos. Quem estiver atento, de visita ao Castelo, na alta noite silenciosa ainda os poderá ouvir conversar.

Ora aconteceu que, por volta dos anos 70, Hernâni Roque, um dos grandes amigos do grande solitário, esteve à frente da direcção d’O Sesimbrense e, sem que em nada alterasse a excelente fisionomia tradicional do nosso periódico, abriu as páginas centrais à colaboração de tão ilustre gente. Basta lembrar, para marcar a importância da iniciativa, que nelas se publicaram um poema de José Régio, o nosso maior poeta português de então, e uma entrevista com Álvaro Ribeiro, o nosso maior filósofo de sempre.

Por esses mesmos anos, realizaram-se na Biblioteca Municipal, por iniciativa do autor destas linhas, uma série de conferências que, ao tempo, tiveram grande repercussão, sobretudo popular. Destas conferências lembrarei a do grande oceanógrafo Clostermann que veio a originar todo o movimento à volta da criação de um parque marítimo; a de Agostinho da Silva, simulando falar da Grécia antiga, quando aquilo de que estava mesmo falando era do Portugal político e das suas misérias; a de António Quadros repassada de espiritualidade messianista; a de Rafael Alves Monteiro contra as construções titanescas e insectiformes que estavam desfigurando Sesimbra.

Quando recordamos agora que O Sesimbrense chegou a ser apontado na televisão como um periódico fascista precisamente por causa da colaboração que venho referindo, não podemos deixar de observar, à luz do que passo a contar, quanto os políticos não sabem o mal que fazem quando se metem a julgar aquilo que mentalmente os ultrapassa.

O que passo a contar é o seguinte:

Os representantes do Estado na Câmara Municipal de Sesimbra, alarmados com o êxito das conferências, desconfiados com o tom e o teor das comunicações, vão de pensar que era preciso evitar que perigosos pensadores de esquerda falassem livremente com o povo de Sesimbra. Não me deixaram convidar mais ninguém e impuseram-me um conferencista por eles escolhido.

Ora era regra por mim estabelecida, a fim de evitar o aborrecimento dos ouvintes, que os oradores não podiam ler discurso escrito, mas deviam sim falar livremente de improviso. Para tanto é necessário coragem, inteligência, imaginação e entrega a Deus.

Aquele que nos foi imposto leu seus papéis e lá fomos aguentando que passasse infindavelmente as folhas até respirarmos de alívio. Este mau hábito de ler quando se fala para o público foi banido do Brasil, onde me aconteceu ver esvaziar-se uma sala cheia de ouvintes logo que o orador pegou nos papéis. O que aconteceu em Sesimbra foi bem mais interessante.

Terminada a leitura, seguiu-se o colóquio com perguntas e respostas. Um pescador ergueu o braço pedindo a palavra:

– Diga-me lá! Foi o senhor que escreveu isso?

Respondeu o conferencista: – Então quem havia de ser?

E o inteligente homem do mar: – Eu é que sei?! Pode muito bem ter sido outra pessoa. Como podemos ter a certeza que foi v. que escreveu isso?

António Telmo

Reunido em Sesimbra, o lugar onde se não morre.

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Uma resposta a PARA A HISTÓRIA DA CULTURA EM SESIMBRA

  1. João Ferreira diz:

    Lindo e extraordinário o texto poético e mitopoético de Antônio Telmo intitulado “Só Deus pode escrever sobre Deus”. Congeminações poéticas, livres, inspiradas, bem sucedidas.
    Se “dizer” é algo que ultrapassa o balbucia ou o desajeitado gesto de quem se surpreende e se afoga na emoção, admitimos que a “arte de dizer” é já uma rebuscada forma de expressar o que da realidade se observa, se pensa ou se deduz. Atingir pela expressão algo que se sente ou se pensa é “dizer”. Isto quando os objetos ou os sujeitos do discurso são contornáveis, definíveis e estão ao alcance da palavra. Mas não se exprime pela “arte de dizer” nada cuja essência seja fugidia, obscura, longínqua, desconhecida.A menos que seja algo que esteja em torno de nós ou dentro de nós e sobre isso consigamos balbuciar ou secretamente ajeitar as palavras num gesto de impotência, de indizibilidade. Mito, poética, mitofilosofia e teologia se revezam e se acotovelam nestes casos para que em nome de algo que nos acossa possamos desajeitadamente mostrar que gostaríamos de “dizer”. Todo este movimento de impotência de expressão é encontrável na história dos homens, sempre que ao olhar o céu ou o cosmos ou sua própria natureza sentiram que não há termos nem expressões adequadas para dizer algo, restando-lhes apenas os pequenos sinais de quem sente algo e sem saber como dizê-lo. Os neoplatônicos chamaram a isto de teologia negativa, quando afirmaram que Deus é inefável, ou seja, que é uma realidade para a qual não há nomes nem expressões que consigam descrevê-lo adequadamente. O Pseudo-Dionísio em De divinis nominibus deixou toda esta teologia definida como se fosse uma teologia que pode falar de Deus sempre pelo que não é e nunca pelo que é. Isto para mostrar a limitação do verbo humano. Muito intensamente Teixeira de Pascoaes, repetidamente, e quase freneticamente, tentou falar deste Deus escondido que se expressa e se comunica através de sinais diretos e indiretos. Leonardo Coimbra desenvolveu uma teologia da embebência ontológica. Dizia que dentro e fora, em nós e pela natureza, somos embebidos pela presença divina.
    Antonio Telmo, neste belíssimo texto, consegue a mais alta congeminação poética ao agregar num texto sedutor o luar do mito e a luz de uma inquietante filosofia mística. Numa narrativa de inspiração e habilidade conseguiu encontrar uma maneira nova de falar da inefabilidade de Deus. Ao dizer que “só Deus escreve sobre Deus” deixa-nos uma pista sensitiva que nos dispõe a aproximações conclusivas de que o logos humano só se realiza no logos divino e que só quando nos afundamos na realidade íntima que ontologicamente nos estrutura, conseguimos encontrar o eco na realidade do ser divino. Isto que o Telmo escreve é algo que os teólogos neoplatônicos e neoaugustinianos de outrora gostariam de ter dito. Neste contexto cabem todas as figuras cimeiras da Filosofia Portuguesa, desde Leonardo, Teixeira de Pascoaes, Álvaro Ribeiro, Eudoro de Sousa e Agostinho da Silva. Porque todos perscrutaram os horizontes desta poesia mística e desta mitofilosofia. O Antônio Telmo conseguiu dizer neste texto admirável algo de precioso sobre esta presença divina no cosmos. Quando diz que “Só Deus escreve sobre Deus”, mostra-nos que “Só Deus sabe em grau certo algo sobre Deus”. E se assim é, “o segredo da escrita sobre Deus” é um segredo divino. O próprio Deus poderá dizer ajustadamente o que seria justo dizer. Nós estamos ainda em estado larvar, buscando descobrir “os acenos divinos” de que falava Eudoro de Sousa, na sequência de Heidegger. Mas numa fase de tentativa, sem que saibamos muito bem como ultrapassar estes acenos em direção à realidade maior que nos desafia.
    João Ferreira
    Brasília, 23 de fevereiro de 2013

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