TÉLMICA, 4

telmoInteligência e bondade*

– Você tem boa cara.

Eis as primeiras palavras que de viva voz ouvi ao Dr. António Telmo, há já muitos anos atrás, num restaurante que penso já não existe – a Mimosa do Camões. Tratava-se do jantar comemorativo do lançamento do primeiro número da nova revista de filosofia – Leonardo. Ali se reuniam num mesmo amor da Pátria, os jovens redactores da nova revista e os mestres lidos – quantas vezes mal lidos, se atendermos à lição de Pascoaes sobre o significado de ler bem – e admirados: Orlando Vitorino, António Telmo, Pinharanda Gomes, Afonso Botelho, António Quadros, isto só para falar dos que mais me formaram enquanto homem, pela vida e pela obra.

Como habitualmente, escutei. As palavras que estes homens admirados proferiram, o modo como o faziam, a virtualidade e virtude que delas emergiam, a luz com que esclareciam fundamentando e firmando as teses e os teoremas, a ânsia de absoluto que em nós – os mais jovens – instilavam, o modo livre e desinteressado como o faziam, tornavam-nos mais homens, faziam-nos crescer, bater o coração mais alto e longe, numa demanda que sendo a de Portugal, ia Além.

Como habitualmente, também, ocupei um dos lugares mais distantes dos mestres. A razão de um tal comportamento, radicava para mim, no facto de ser o mais novo – e portanto de dar a primazia aos mais velhos – e de me considerar o menos sabedor – e portanto de dar também a primazia aos que melhor exprimiam ou apresentavam as interrogações moventes do pensamento e da imaginação. A distância, se era para mim manifestação de uma certa timidez, nascida da imensa admiração nutrida por estes homens, era também para mim, garantia de um apuramento auditivo. Ouvia tudo com a máxima atenção e procurava tudo guardar; sem esforço o fazia, porque as palavras, sabia-as de cor, de coração, tais as palavras nascidas no amor.

O Dr. António Telmo dirigia-se para a porta, a fim de fazer a viagem de regresso a Estremoz. Eis senão quando, me distingue entre alguns dos convivas com a sua atenção. Levantei-me, apertando-lhe a mão que me estendera – após ter feito a afirmação a que aludi no início deste escrito – e ainda me presenteou com a alegria de afirmar ter apreciado o meu texto. O Dr. António Telmo foi assim um dos meus primeiros “espelhos”, isto é, uma daquelas pessoas significativas que nos permitem olhar para nós. A nossa vida parece depender em parte, do modo como algumas pessoas interpretam as manifestações da nossa fisionomia. O modo como o fazem, permite-nos ganhar uma progressiva autonomia, capacidade de escolha e de descoberta dos nossos talentos. Como se todo o nosso esforço de saber e de iluminação se passasse a concentrar nesse encontro da nossa forma com a nossa figura. A lembrança da infância e das brincadeiras que então nos davam prazer, são uma das chaves desse encontro.

Sempre a lembrança, a memória, a luta contra o esquecimento. É Álvaro Ribeiro quem algures afirma que os paraísos perdidos, são os paraísos das palavras perdidas, não dadas ou pior esquecidas. A importância dada ao esquecimento por Álvaro Ribeiro era tamanha, que sugeria ser preferível inventar uma mentira do que confessar o esquecimento. Conhecedor da dialéctica do discurso amoroso, e do naturalismo sentimentalista que continua a caracterizar o tempo actual, chama-nos a atenção para a importância da memória e do raciocínio na relação com a mulher. Para aferir da verdade das palavras e da sua consonância com os comportamentos, sempre a mulher se manifesta mais sabedora da memória das palavras trocadas e no “teste” a quem a pretende, elegerá aquele que se distinguir entre os demais por alguma espécie de superioridade. A fidelidade às palavras trocadas e não esquecidas constituirá sempre elemento fundamental no firmar da relação amorosa.

Sabemos, por leitura de alguns clássicos, da importância da memória e do esquecimento. A Ulisses, oferece a deusa Calipso, a imortalidade, e a sua beleza… bastava-lhe tomar a bebida do esquecimento. Platão fala-nos do rio do Letes, do qual os que mais bebem no trânsito para esta vida, se tornam os mais esquecidos, sendo que os filósofos são os que melhor se lembram da vida perdurável, por pouco ou nada terem bebido dessa água. Na demanda do Graal, muitos são os cavaleiros que se perdem, que se desorientam, alguns chegam mesmo a beber da bebida que a feiticeira Morgana lhes oferece… e tornam-se autómatos, ao serviço de um poder que os encerra na armadura vestida para lutar contra o mal e agora tornada prisão…

Numa das suas obras o Dr. António Telmo afirma a necessidade de cada um se constituir como uma ilha… e toda a sua obra é, no fundo, uma luta contra o esquecimento. Toda ela é um imenso exercício do novo e da novidade, por isso a sua obra é, podemos dizer, tão sã e inclassificável. A possibilidade de fazer de cada vez de modo diferente, de nos revelar diferentes aspectos da realidade e cada realidade em seus múltiplos aspectos, são para mim indícios de uma obra que nos ensina a treinar a capacidade inventiva e auto-crítica, a não nos queixarmos e sobretudo a que os outros não se queixem de nós.

A nossa sociedade é cada vez mais mediática, manipuladora e supostamente comunicacional. De entre os inúmeros problemas que se colocam actualmente às pessoas – onda de sentimentalismo, embotar do raciocínio, incapacidade de adiar as recompensas, incapacidade de identificação das emoções próprias – um que surge com particular acuidade é a chamada necessidade de transparência. Lembro um episódio em casa do Dr. António Telmo. Perscrutando no meu olhar o espanto ou o encantamento do profano perante a magia do esotérico, apontou para uma prateleira no seu escritório e disse: aqui tem à sua frente, todo o esoterismo. Maior transparência não podia haver. Mantendo com a transparência do dizer, a inviolabilidade do espaço luminoso da imaginação, ensinava-me, penso eu, a garantir a pouca liberdade que nos resta neste imenso Big Brother em que vivemos. Outras lições a retirar desse gesto e dessas palavras: não deixar que nos adivinhem os pensamentos, para nos mantermos livres; o sonho e a imaginação é que nos permitem viver no meio das circunstanciais adversidades; a arte, alimentada pela imaginação, existe para que nos possamos esconder enquanto nos mostramos; é na subtileza das palavras que podemos construir novos mundos.

Inteligência e bondade são na obra de António Telmo conceitos e ideias permutáveis. Quando o olho, vejo um homem bom. Quando o oiço, escuto um homem inteligente.

Dr. António Telmo… o senhor tem muito boa cara!

Elísio Gala

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*Originalmente publicado no blogue dos Cadernos de Filosofia Extravagante, na “Saudação a António Telmo” (Abril e Maio de 2009), por ocasião do 82.º aniversário do filósofo.

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