UM DIÁLOGO MITOLÓGICO ENTRE TELMO E RAFAEL, 1

Em 20 de Junho de 1972, António Telmo publicava em O Sesimbrense um artigo sumamente admirável sobre a origem das touradas, associando-as à incidência da sismicidade: inventadas para impedir os tremores de terra,  as corridas de touros visavam dominar a força telúrica que o animal lidado representava. Sesimbra, posto que sísmica, oferecia excepção a esta regra: ilha ou microclima, incrustada no território português “como um diamante num anel”, povoavam-na camitas (junto ao mar) e semitas (junto ao Castelo), ambos inimigos das touradas. Pleno de intuição genial, imaginação simbólica e fulgor raciocinante, o escrito notável irá oferecer a Rafael Monteiro uma sorte de prova real…

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Dos touros e das touradas*

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Não há nada que David não conheça do que os outros conheçam que mereça a pena conhecer-se. Além disso, há coisas que só ele sabe, porque não as recebeu de ninguém. Foi ele próprio a pensá-las. Imagine-se isto: há séculos que se anda escrevendo sobre toiros e toiradas. Pois até agora ninguém, entre milhões de homens e mulheres, descobriu como nasceram as touradas. Eis o diálogo que, a propósito, se passou entre ele e mim.

DAVID – As touradas, meu caro amigo, foram feitas não para dominar os touros, porque então seria melhor e mais fácil matá-los a tiro, mas, calcule você!, para dominar os tremores de terra. Nunca ninguém reparou no seguinte, e, no entanto, basta olhar para um mapa: as zonas de toiradas e as zonas sísmicas coincidem, na sua generalidade. Em Portugal, a linha sísmica por excelência sobe o Tejo, de Lisboa até Abrantes; é também a linha fundamental das toiradas, com Lisboa, Vila Franca, Santarém, Salvaterra, etc.… Veja agora a prova pelo negativo: porque é que o Brasil, feito por portugueses, povoado por portugueses, que levaram tudo para lá, desde as cavalhadas e as Festas do Espírito Santo até ao Cristianismo, porque é que o Brasil não tem toiradas? Porque não eram necessárias; no Brasil não há tremores de terra. Já, em contrapartida, o México, o Peru, etc. -, zonas sísmicas, são uns perdidos pela festa dos toiros.

EU – Então e o Japão, por exemplo?

DAVID – Você é estúpido. Isso é outra cultura. Há outra maneira do homem se defender dos sismos. Casas de madeira. E talvez umas danças, de que conhecemos muito pouco.

EU – Umas danças?

DAVID – Claro. Veja você a Andaluzia, zona sísmica, e o Ribatejo, zona sísmica, como paralelamente às toiradas têm aquelas danças, o fandango e outras, em que batem com o pé na terra, citando a força telúrica, a energia indómita da terra – de que o touro é símbolo – para a dominar.

EU – !…

DAVID – Espere! Em Creta, pátria dos «Touros», acreditava-se que o mugido que acompanhava os tremores de terra era lançado por um monstro subterrâneo, a que chamavam Minotauro. Estava no fundo de um labirinto e foi Teseu que o matou. Teseu! Que belo para toureiro!

EU – Muito bem. Mas então Sesimbra? Sesimbra é zona sísmica e, no entanto, não tem nem nunca teve touradas.

DAVID – Não sabe porquê? Porque Sesimbra é uma ilha ou, como se diz em ciência, um microclima. Incrustou-se no território português como um diamante num anel. É, geográfica, geológica e populacionalmente uma coisa diferente. Os povos que habitaram Sesimbra são descendentes de Cam, junto do mar, e de Sem, junto ao Castelo. Cam e Sem são dois filhos de Noé que dão origem aos povos camitas e aos semitas, ambos inimigos das touradas. O outro filho de Noé, Japhet, é que dá os cretenses, como se vê pelo nome de Jápeto, ligado à história do labirinto.

Calei-me. Tanta ciência cala, porque começamos a não compreender. Mas ainda lhe hei-de perguntar como soube isto tudo sobre a população de Sesimbra. E o leitor vai ficar convencido, como eu fico sempre.

António Telmo

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*Publicado em O Sesimbrense de 20 de Junho de 1972. Recolhido, com o título Diálogo com David, em Filosofia e Kabbalah (Guimarães Editores, 1989). Reunido em Sesimbra, o lugar onde se não morre.

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