2 DE DEZEMBRO DE 1977: UMA CARTA DE ANTÓNIO TELMO PARA ÁLVARO RIBEIRO

Interiores

Respondendo à carta de Álvaro Ribeiro, de 30 de Novembro de 1977, já aqui publicada, António Telmo escreveu a carta, originalmente publicada em Interiores, quarto volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante, que de seguida se transcreve. Os Cadernos podem ser adquiridos junto da editora Zéfiro ou nas lojas FNAC.

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Borba 2 de Dezembro de 1977

 Meu caro Amigo Sr. Dr. Álvaro Ribeiro

 Muito grato pela bondade que me dedica na carta que me escreveu, não posso deixar de responder imediatamente, tanto mais quanto nos últimos dias tenho vindo a viver o prazer intelectual de ler o seu livro “Memórias de um Letrado”, que o Orlando fez o favor de me emprestar.

 No curso da minha vida nunca deixei de activar a influência espiritual que recebi do Sr. dr. Álvaro Ribeiro, embora tivesse sempre procurado adaptar à minha natureza e à minha vocação (como é próprio da Arte) o ensino pelo qual essa energia se exprime e desenvolve. Os livros de Álvaro Ribeiro têm uma cadência periódica de publicação, marcam no curso do nosso tempo intelectual altos momentos ou momentos de elevação que nos impelem nos intervalos da gama evolutiva, não permitindo o desvio para estados de desânimo. Pela segunda vez já li o seu novo livro e nele segui o alto exemplo de aprendiz de filosofia que até quando já se libertou do Mestre continua a admirá-lo, a estudá-lo e a amar a sua companhia. Pela minha parte, não só nunca esqueci a dedicatória dos Estudos Gerais como para sempre ficou em mim a sugestão que me deu, aqui há trinta anos, no Café Gelo, de utilizar a árvore sephirótica em estudos futuros de gramática, retórica e dialética. Fico muito contente por ver reconhecida pelo Mestre a minha qualidade de discípulo.

 Por um amigo comum tinha sido informado da “opinião” do Afonso Botelho, o qual, a propósito do meu trabalho de gramática, teria dito ser eu mais “imaginoso” que teorético. Vi-me redimido pela sua carta da qual recebo a honra de ser considerado entre os geómetras.

 Também não gostei do último número da “Escola Formal”, excessivamente dominado pela circunstância política. Tenho esperança que em conversas do grupo se consiga dar outra orientação aos escritos ou desviar a orientação presente num intervalo propício. Certos leitores que poderiam aceitar ou estar aceitando, pelo menos no plano do inconsciente, o magistério da filosofia podem sentir-se repelidos pela violência de certas expressões e acentuar em si a subordinação da ideia ao sentimento político. Deveremos, quanto a mim, situarmo-nos no vértice do triângulo e não descer para lutar no plano dos contendores, dominar desse ponto a linha dos opostos, resplandecendo à direita e à esquerda, sem lugar ou tempo que não sejam o lugar e o tempo da ideia.

 Saudades de todos nós, do Manuel para os Padrinhos.

 António Telmo

 P. S. Brevemente irei visitá-lo.

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