TÉLMICA, 12

Tó Manel e António Telmo

Amigo de António Telmo e magistral cronista do século XX sesimbrense, se ainda estivesse entre nós (faleceu em 13 de Dezembro de 2009), António Cagica Rapaz (à direita na foto, com António Telmo na Biblioteca Municipal de Sesimbra) completaria hoje 69 anos de idade. Do seu primeiro livro, Noventa e Tal Contos, saído a lume em 2000, aqui se publica uma crónica onde nos aparece iluminada certa faceta menos conhecida de Telmo.

____________

O bilhar

O bilhar era o cartão de visita do Central, sendo o patrão Arménio um fino executante, embora lhe faltasse fôlego para disputas sérias. Exibia-se de vez em quando, com o seu taco e as suas bolas, jogava sempre em casa, ao seu ritmo tranquilo, por prazer, ciência compassada, tacada suave.

Achava graça aos meus onze ou doze anos e à paixão pelo jogo da carambola, e chegou a dar-me algumas lições que saboreei como dádiva rara, embora o meu verdadeiro mestre tenha sido o Tó, o filho do doutor do Registo…

O bilhar seduziu-me cedo e comecei a praticar no Chagas, por bondade do João do Hospital que simpatizava comigo e me deixava jogar clandestinamente de graça, andava no primeiro ano do colégio do Dr. Costa Marques e só tinha aulas de tarde.

Por isso, às nove e meia lá estava caído no Chagas onde ninguém jogava de manhã. Abria a janela que dava para a cocheira do Fartura, tirava o pano que cobria o bilhar e começava o treino. Depois de me passar as bolas através do postigo, o João ia deitar um olho à Pensão Chic onde trabalhava uma moçoila com quem viria a casar. Entretanto já tinha acendido a telefonia para ouvirmos, a partir das dez, “O Talismã, o seu programa da manhã”, produção associada de Armando Marques Ferreira e Gilberto Cotta. Ao microfone, o próprio Armando e a Eugénia Maria. Mas também por lá passaram o António Miguel e o nosso Vítor Marques, do Forno. Era o tempo dos românticos sul-americanos, Ivon Curi, Lucho Gatica e Lorenzo Gonzalez. De tanto treinar, acabei por ganhar algum jeito e chamei a atenção do Dr. António Telmo, o Tó, que teve a gentileza de me ensinar a jogar com preceito, com os efeitos adequados e, sobretudo, a juntar. Fiz grandes progressos e pratiquei com gosto e proveito, ganhando uma experiência que viria a servir-me, anos depois, em Coimbra, para ganhar uns oportunos patacos, no snooker, na cave do Café Montanha…

Para além do patrão Arménio, também os empregados praticavam. O António Luís jogava bem, embora fosse pouco concentrado, o Cândido tinha bom toque de bola, mas o Hernâni, o saudoso inspector Cachopa, era melhor no ping-pong do que às três tabelas.

Da freguesia habitual, ficaram-me na memória as impagáveis partidas entre o Zé Romão, pequeno e risonho, e o António Casa Pia, cheio de retórica, passes de tauromaquia, verónicas e chicuelinas, acompanhando o movimento caprichoso das bolas, trejeitos e requebros, uma coreografia notável à volta da mesa. O Orlando, dos táxis, chorava-se muito, só jogava pela certa, para ganhar. Do mesmo estilo era o Pai do Céu que ganhava quase sempre ao Leste, apesar de o bom Daniel ter melhor técnica. Porém, abusava da fantasia, da tacada artística, e acabava por encostar a barriga ao balcão.

Mas os mestres incontestados eram o Tó e o Chico Cagica. Dotado para todos os desportos, talento inato, o Chico era um bilharista admirável. Nas raras vezes em que jogava, o Central em peso vinha assistir, apreciar a facilidade dos predestinados, a fluidez, o engenho, jogo corrido, com o taco a transformar-se em varinha mágica, sortilégio raro…

O Tó era um filósofo, um poeta, um artista que cultivava a arte pela arte, queixo esticado, gesto ousado, em busca incessante do lance de génio.

Os bons jogadores de bilhar adaptaram-se facilmente ao snooker que consideravam como arte menor e a que só a novidade deu algum interesse. Os menos hábeis jogavam na retranca, sem arriscar, com o único objectivo de ganhar, ao passo que outros davam largas à imaginação e à ousadia em partidas memoráveis como as que opunham o Tó e o Nicola filho. Eu ficava todo contente quando o Tó ganhava.

O Cândido folgava à quarta-feira e ia à pesca. O António Luís também. Eu permanecia fiel ao Central, até a minha mãe me chamar para jantar…

1982

António Cagica Rapaz 

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s