DO ENSINO DA HISTÓRIA DE PORTUGAL PELA «MENSAGEM» DE FERNANDO PESSOA

VII-1Tive a ideia de imaginar o que seria o ensino da História de Portugal se tivesse como compêndio básico desde os sete anos a Mensagem de Fernando Pessoa, progredindo, ao longo dos anos escolares até ao ensino superior, do exoterismo para o esoterismo, culminando na plena compreensão do nosso destino histórico pelo mito do Encoberto.

A interpretação da história de Portugal pelo mito do Encoberto é a interpretação da história de Portugal pela filosofia portuguesa. Retomando direcções que já se encontram n’Os Lusíadas pela ideia da Ilha a mover as gestas dos heróis e pela evidência que neles tem a figura do Rei que nela habitará, direcções que se encontram também em António Vieira com a História do Futuro, essa interpretação culminou, no século XX, nos livros de Sampaio Bruno, Agostinho da Silva e António Quadros, mas está mais ou menos evidente em todos os pensadores de filosofia portuguesa. A poesia que, quando é superior, é a companheira da filosofia renovou nas formas que lhe são próprias a mesma ideia, desde a Pátria de Guerra Junqueiro, pelo Marânus de Teixeira de Pascoaes, até à Mensagem de Pessoa.

Pois é, a Mensagem de Pessoa! Logo surge a objecção de que é um conjunto de textos muito difíceis, inacessíveis à inteligência das crianças e até dos professores. Vejamos se isto é verdade, se não é possível dar todo o ensino da história de Portugal desde o primeiro até ao último ano pelo fio com que se tece a Mensagem.

Nos primeiros anos, funcionaria predominantemente como um roteiro, definindo-se pelos seus momentos os momentos predominantes do programa. O professor não precisaria de ter qualquer conhecimento de natureza esotérica, embora fosse preferível que o tivesse para o envolver na sua apresentação exotérica do texto. Roteiro embora, certos poemas poderiam ser lidos e compreendidos no seu sentido literal por uma criança de sete ou oito anos. O primeiro, sobre a Europa, (“A Europa jaz, posta sobre os cotovelos”) com a ajuda dum mapa tornar-se-ia claríssimo verso a verso. Agora que está consumada a integração de Portugal na Europa, seria bom que as crianças tomassem consciência, nos termos adequados à idade, de que, perante um mapa, se pode dizer com Luís de Camões:

“Eis aqui quase cume da cabeça
De Europa, toda o reino lusitano
Onde a terra se acaba e o mar começa”
 

Ser-lhe-ia depois mostrado de maneira mais simples todo o sentido do nosso olhar atlântico. A Mensagem é constituída por três partes: Brasão, Mar Português e O Encoberto, que correspondem historicamente à formação de Portugal, à sua expansão pelos descobrimentos marítimos, e, com demora no sebastianismo, ao seu ideal. O Brasão é um símbolo imenso na sua profundidade, mas de início seria utilizado como uma mnemóni-ca. Qualquer criança suficientemente normal está apta para guardar na memória os sete castelos, as cinco quinas e a coroa com o Grifo, porque nessa idade ainda não houve tempo para lhe destruirmos a imaginação. Tendo como suporte no seu espírito essas imagens, seguiria com encanto o ensino do professor que lhe falasse de Ulisses e da Odisseia, da sua fundação de Lisboa, de Viriato e da guerrilha contra os Romanos, do Conde D. Henrique e dos Cruzados, do fundador da Pátria e da briga de D. Tareja com o filho, de D. Dinis, poeta, sábio e lavrador e, por fim, do glorioso matrimónio de D. João o Primeiro com D. Filipa de Lencastre.

A glória deste casamento manifestar-se-á pelas Quinas, cujo estudo se seguiria ao dos Castelos, dando-se assim ocasião a que o professor preparasse a Segunda fase, a dos Descobrimentos.

Julgo serem suficientes estas indicações par ver como seria fácil ensinar a uma criança pela Mensagem, ainda antes da puberdade, o que na história de Portugal é essencial por ser simbólico e, ao mesmo tempo, factual, isto é, real. Aliás, não seria simbólico se não fosse real, nem real se não fosse simbólico.

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Quando, no Ensino Superior, isto é, na Universidade, se fizesse convergir para o uno a múltipla variedade dos acontecimentos históricos, o mito do Encoberto teria de ser pensado pela filosofia do Encoberto para que o mais fundo sentido da história de Portugal fosse apreendido pelos que soubessem interrogar. Um ensino da história de Portugal que, de ciclo em ciclo de estudo, fosse aprofundando a compreensão da Mensagem, assumiria a forma de uma filosofia do Oculto. Os estudantes estariam, nesse estádio, aptos para a reflexão das várias expressões portu-guesas dessa filosofia, desde A Ideia de Deus de Sampaio Bruno, pela Razão Experimental de Leonardo Coimbra e a Razão Animada de Álvaro Ribeiro, até à Teoria do Ser e da Verdade de José Marinho. Como a finalidade de tal ensino da história não é cultural, bastava a companhia reflexiva de um só destes filósofos, escolhido de acordo com as tendências especulativas de quem o escolhesse, depois de uma breve passagem pelos restantes. Por exemplo: aquele que se decidisse por José Marinho para intermediário do seu mestre interior na noção de Insubstancial Substante e na relação dela com a ideia de que o Aparente é o absolutamente Encoberto e de que o Encoberto é o absolutamente Aparente, teria um caminho deslumbrante de acesso a uma das mais altas e profundas significações do mito.

Na fase de iniciação à filosofia do Encoberto, o primeiro poema estudado dos quarenta e quatro de que se compõe a Mensagem deveria ser o último. O símbolo do nevoeiro é para Fernando Pessoa como, antes dele, para Sampaio Bruno, a expressão do mundo actual moldado pela ditadura da mediocridade. Esta fase está, como se sabe, claramente indicada no mito. O Rei só regressará quando, no termo do ciclo, as forças inferiores e subterrâneas, significadas pelo ferro e pelo petróleo que se extraem dos antros da terra tiverem vindo à superfície, anulando aqui toda a luz do espírito e toda a inteligência e todo o verídico sentimento. Por outro lado, o Encoberto é encoberto porque, os homens não são capazes de o ver no Aparente, no seu aparecer. Esta significação do mito que faz depender o regresso do Rei simultaneamente de se atingir o mais alto grau de estupidez e de haver a inteligência capaz de o reconhecer é uma contradição em que se envolvem direcções insuspeitas de procura. O nevoeiro não tem só o sentido que lhe atribui Fernando Pessoa. Ele encobre no seu seio a luz da madrugada nascente, é como que um “caos cintilante”, para falar como Jacob Boehme, donde irromperá o Sol, “corpo de Deus vivo e desnudo”.

Creio que bastam estas sugestões para o leitor inteligente. No início escola cultural, no meio escola exotérica, no termo escola acroamática. Três fases para o mesmo ensino da história de Portugal. E essas sugestões bastam pois nunca como hoje foi tão necessária a disciplina do arcano, mas também nunca foi tão necessário dizer abertamente e por toda a parte o que julgamos saber no seio dessa “actividade invisível” que é o pensamento.

António Telmo

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