DE “UMA LOJA DE SÃO JOÃO”: OS LUGARES D’«A TERRA PROMETIDA», 4

telmo“ESTREMOZ

PÁSCOA de 1999

                                                Meu estimado leitor

Descobri, aqui, em Estremoz, aquilo a que, entre nós, poderei chamar uma Loja de São João do século XVIII.

É uma “teoria” de azulejos formando paredes e abóbada de uma grande sala, hoje utilizada como lugar de leitura e de baile da Sociedade Recreativa Republicana Estremocense. O que é estranho é que estes azulejos tenham estado tapados, numa hipótese durante um século, noutra durante dois, por uma espessa camada de caliça e que só agora, há cerca de três anos, tenham sido, por um acaso, postos a nu. A primeira hipótese é a de que tenham sido os republicanos a proceder à sua cobertura, pois essa gente não gosta de coisas religiosas. Segundo Túlio Espanca, que não podia saber dos azulejos, a referida sala constituiria o primeiro piso de uma igreja com dois (não percebo muito de igrejas para saber o que é uma de dois pisos, separados por um tecto) anexa a um antigo convento, no século XVIII esvaziado para receber a Misericórdia, trasladada de outra casa noutro lugar da cidade, onde terá sido fundada no século XVI. A segunda hipótese é a de que tenham sido os “próprios” que a utilizavam a esconder os azulejos, durante as lutas liberais, dos absolutistas que durante alguns anos dominaram a cidade, onde exerceram a carnificina que Sampaio Bruno considera o feito mais horroroso da nossa história. De passagem, devo dizer-lhe que Sampaio Bruno com Guerra Junqueiro, e não Afonso Costa ou Bernardino Machado, figuram nos retratos que ornamentam o gabinete da Direcção da Sociedade.

A segunda hipótese é a que convém se, de facto, estamos perante uma Loja de São João. Não pretendo com isto valorizar a Maçonaria, importada, como sabemos, do estrangeiro durante o século XVIII, mas marcar a existência em Portugal, nessa data, de qualquer coisa que seria a Maçonaria entre nós e que viria de muito antes. Essa qualquer coisa liga-se com as Misericórdias. D. Leonor, a sua fundadora, era irmã de D. Manuel I e pertencia àquele grupo que tentou destituir D. João II. Era um grupo, o do assassinado Duque de Viseu, também irmão da rainha, onde mandava espiritualmente Isaac Abarnabel, o mestre de Cabala de D. Afonso V. É nesta linha que devemos procurar a tradição oculta portuguesa (Templários, Casa de Avis, etc.). Naquilo a que eu chamo uma Loja de São João está de facto simbolicamente dada a Nossa Coisa. Importa mostrar que se trata realmente disso.”

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O olhar hermenêutico de António Telmo não cessa de nos surpreender, mesmo — ou sobretudo — quando se trata de desocultar uma vetusta loja maçónica a partir dos azulejos que revestem as paredes do salão da Sociedade Recreativa Republicana Estremocense. “Uma Loja de São João” se intitula o texto extractado, que é um dos inéditos de A Terra Prometida

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