NOS 50 ANOS DE «ARTE POÉTICA»: UMA RECENSÃO DE NATÉRCIA FREIRE , PARA «CONFLUÊNCIAS», 5.º VOLUME DOS «CADERNOS DE FILOSOFIA EXTRAVAGANTE»

ATelmo_Arte_Poetica_1963

A jornalista e poetisa Natércia Freire editou e coordenou anos a fio a página de “Artes e Letras” do Diário de Notícias, onde António Telmo colaborou por vezes. Aliás, muito recentemente, no mês que hoje finda, e a partir de uma referência elogiosa feita pelo Professor Rebelo Gonçalves, em carta dirigida ao seu aluno António Telmo Carvalho Vitorino, foi possível identificar um disperso télmico, publicado naquela página em 31 de Janeiro de 1963, que se encontrava omisso na sua bibliografia activa, e que foi já “resgatado” a partir de uma pesquisa nos microfilmes da Biblioteca Nacional. Trata-se do artigo “Como traduzir Henrique Bergson”, correspondente ao primeiro capítulo da sua Arte Poética, livro que veio a sair a lume nesse mesmo ano. Telmo terá assim dado para publicação a Natércia Freire uma parte do seu livro, já parcial ou integralmente composto (pois não é de crer que o artigo tivesse sido escrito ad hoc e depois, mais tarde, integrado naquela obra, definindo-lhe o começo). Quereria assim o “novel filósofo” (a expressão é do seu mestre, Álvaro Ribeiro, dedicatário da Arte Poética) tomar o pulso ao público com esta amostra? Não sabemos.

No ano seguinte, a jornalista deu à estampa, na rubrica “Inventário da Semana”, na referida página de “Artes e Letras”, do Diário de Notícias de 9 de Julho, uma breve, mas muito inteligente, recensão da Arte Poética, cujo “recorte” integrou a exposição De Sesimbra à História Secreta: António Telmo e as Margens da Aventura, patente na Casa do Bispo, desde 23 de Março, dia da inauguração deste novo espaço cultural da vila de Sesimbra, até ao passado dia 20. Essa recensão, que agora transcrevemos, sairá a lume em «Confluências», quinto volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante, como parte integrante de um pequeno dossier comemorativo da efeméride relativa a Arte Poética

____________

“I. Intitula-se Arte Poética este li[vro de António Telmo que chegou ao][2] público em 1963. Trata-se de um livro denso – não pesado. Tenso – não opaco. Murmurante, penumbroso – não confuso.

Um livro onde o leitor se encontra, tranquilamente, a pensar.

Este livro mostra como a literatura e, em especial, a poesia e o teatro possuem uma finalidade e uma função operativas que abrangem, o que há de mais importante e decisivo no homem. Só em relação a tal finalidade a literatura pode constituir efectivamente uma actividade artística. Fora dela não passa de um jogo inútil, e até nocivo, de propaganda ou de subordinação a suspeitos interesses pessoais, sociais ou políticos, escreveu alguém na contracapa de Arte Poética.

Na verdade, quer tratando de problemas filológicos, como acontece no capítulo «Como traduzir Henrique Bergson», ou de outro, «Memónicas», ou ainda da «Teoria da Palavra»; quer tratando de Arte Poética em capítulos como «Os Ritmos», «Os Possessos» ou «As Descidas ao reino dos Sonhos». Quer ainda em «Problemas», como os que exprime em Pedra Filosofal, o que atrai o leitor é uma seriedade de posições (António Telmo, segundo Bergson, não se queda, no entanto, no imobilismo fanático do vulgar intérprete), todas simultaneamente livres e coerentes.

Em Arte Poética, o capítulo «Os Ritmos» é dos mais notáveis. «Parece indiscutível que um erro viciou a polémica que, a propósito, se levanta entre passadistas e modernistas, quando de um e outro lado se julgou que o ritmo é separável da língua. Discutível é somente o modo de fixar, pela metrificação, o ritmo inerente à palavra oral». E, mais adiante: «Se admitirmos que a imagem actua, o ritmo mental da palavra deve representar a parte de esforço do poeta, procurando dar-lhe a direcção desejada, de modo a torná-la capaz de actuar sobre os outros. Dupla é, pois, a função do ritmo: – de invocação e de sugestão.

A arte – escreve Bergson – tem por finalidade adormecer as potências activas ou, antes, resistentes, da alma, para nos conduzir a um estado de docilidade tal que realizamos logo a ideia que nos sugerem e logo simpatizamos com o sentimento que nos comunicam.

Estas e outras afirmações e deduções, como as seguintes, de António Telmo, dão a este livro um lugar de leitura necessária neste nosso tempo. Convém interiorizar a palavra. «Os poetas que não praticam este exercício não fazem mais do que obedecer a influências errantes que a seriedade cultural em que vivem condensa e conduz». «A intuição é como uma espada que, matando o mental, alcança as imagens na sua origem».

Nesta secção não se pretende fazer a crítica de nenhum trabalho. Ela nasceu de um movimento de adesão às obras que entendemos válidas. E Arte Poética é um livro que dignifica o livre pensamento humano e português.

(…)”

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s