NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA, DIA 6, ÀS 18:30, EM SÃO BARTOLOMEU DE MESSINES: HOMENAGEM A CARLOS VARGAS

Carlos Vargas - CONVITE

Inicialmente envolta no manto do segredo que garante a surpresa, a iniciativa de Luísa Janeirinho começou a ganhar forma em Julho último. Conjugando os apoios da Caixa Agrícola de Messines, da Sphaera Mundi, do MIL e da Nova Águia, num ápice estavam reunidos para publicação, num livro que é um modo de lhe prestar a justa homenagem que os seus méritos há muito reclamavam, vinte escritos de Carlos Vargas, a que se juntam outros escritos de amigos: Renato Epifânio, Miguel Real, Pedro Martins, José Carlos Xavier, Agostinho da Silva, António Telmo, João de Deus e Fernando Pessoa. Mas este é também um livro de família – pelas ilustrações da Nova e do Atlas (seus netos) e da Micaela (sua filha). E um livro de amor ao Carlos Vargas, Um Homem do Sul. O lançamento é já na próxima sexta-feira, pelas 18:30, no auditório da Caixa de Crédito Agrícola, em São Bartolomeu de Messines, e a família télmica, a que o Carlos, há muito, naturalmente pertence, vai estar presente. Em jeito de pré-publicação, aqui deixamos o escrito com que Pedro Martins colabora neste projecto.

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Dom Carlos

Volta e meia, António Telmo costumava lembrar os tais quinhentos mencionados por José Marinho. O Carlos Vargas é um deles. É dos nossos.

Telmo foi um desses portugueses que Agostinho da Silva pretendia ver espalhados como padrões pelos quatros cantos do mundo, cumprindo em Granada o desígnio do compadre. Vargas, que vários anos conviveu com ambos, vive paredes-meias com o cais de embarque de onde se larga para as sete partidas do sonho, nessa Messines em que por Silves se chega a Sagres.

Nalgumas das páginas deste seu livro, quase o ouvimos conversar com os dois Mestres, ali onde os filósofos discreteiam o Quinto Império: Agostinho mui ciente de quão precária é a salvação pela técnica, logo que ao destino lhe bata à porta a natureza humana; Telmo bem sabendo que pela luz infernal do mecanismo não raro se refracta a frescura imprevista do Santo Espírito.

Quase ao cair do pano sobre este seu livrinho, volta o Carlos à casa da partida, para interrogar a mudez da Grande Esfinge. Liberdade, Igualdade, Fraternidade: o ternário sagrado em que Saint-Martin, na senda do português Pascoal Martins, depôs imbricado tudo quanto haveria de ser claramente visto.

Sempre me interroguei sobre o silêncio de Agostinho perante Pascoaes. Lendo a Reflexão, onde lhe não gratifica o mestrado, ou Um Fernando Pessoa, em que exalta o seu émulo, percebe-se porém uma séria linha de continuidade, que vem de mais longe, e de mais fundo, com Sampaio Bruno, todos três formando aquela trindade libertária que serve a política de Deus, para dele esperar, em última instância, como quem já nada espera, um milagre grande e derradeiro que acenda no resseco coração dos homens a centelha onde enfim revivam irmãos. António Telmo, fiando menos da história, ou da sociologia, talvez fosse mais por aqui: aguardava a madrugada em que o dia lhe houvesse de nascer como o maior dos saltos. Ou dos sobressaltos.

Não vai o Carlos contra isto em nada do que aqui deixou escrito; mas tem aquela pressa salvífica de que nos fala Marinho quando nos fala de Bruno. Fados que os deuses sopram verteram o mais denso negrume no tinteiro da sua pluma. Coube-lhe em sorte a crónica dos anos mais críticos, em que a fera impiedade dos homens de novo revela a bruteza de Mamon ou de Baal. Mas o Carlos, como seu mestre António Telmo, procura sempre ver o bem no mal; e assim, com mestre Agostinho, logo vislumbra na injunção da escassez um caminho de retorno à pureza despojada onde refulge o essencial. Nestes dois sábios homens, como no seu João de Deus, encontra ele os luzeiros com que arrosta a treva do caminho. Na lonjura da serra algarvia, sobre o mar da planície, são o seu porto de abrigo. Em quanto escreve, exorta de seu natural à honradez e à sensatez, binómio tão evidente na bondade serena e discreta com que sempre aparece a quem o olha. Parece pouco, parece óbvio – mas, ainda assim, continua em falta; e a verdade é que alguém tem agora de partir o ovo a Colombo.

Na vida como na escrita, Carlos Vargas não separa o halo do espírito das coisas do mundo. Daí a alternância proverbial na cadência temática por que pauta o teor das suas crónicas, oscilante entre a lição exemplar dos mestres e o curso dos acontecimentos que o reclamam. Assim também com a vida, quando faz radicar o renovo do culto pentecostal no vínculo orgânico de um convívio diuturno qual o do povo de São Bartolomeu, sem o que o comunitarismo paraclético visionado por Agostinho da Silva se perde ingloriamente num fogo-fátuo de pechisbeque.

Vem depois João de Deus ensinar a ler o Menino Imperador, que Agostinho fizera coroar. Não sei de nobreza maior. Quem quer vir ver o Menino feito homem, do Amor vivendo a verdade que António Telmo ensinou? Não sei aliás de outra nobreza. Pois não é assim, senhor Dom Carlos?

Pedro Martins

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