UM INÉDITO DE AGOSTINHO DA SILVA PARA «CONFLUÊNCIAS», QUINTO VOLUME DOS «CADERNOS DE FILOSOFIA EXTRAVAGANTE»

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“Taxinomia e caça são, efectivamente, duas qualidades distintas e é bom que tenha sido o mundo provido das duas raças de trabalhadores; pena que tão frequentemente rosnem uns contra os outros, sem se reconhecerem companheiros e sem quererem confessar, posto que muitas vezes o aceitem, que uns aos outros se ajudam, por aquilo a que na história dos organismos se vai chamando de retroacção positiva…”

O excerto é transcrito de um texto inédito assinado por Agostinho da Silva, e datado de “Belém de Cachoeira, 7.3.68”.  Pelo tom prefacial e pelas referências à estrutura da obra e ao seu teor, ficamos a saber que se pronuncia sobre um livro, hoje não identificável, e provavelmente perdido, que António Telmo teria pronto para publicação durante os seus anos brasilienses. O maniqueísmo, o priscilianismo e o culto do Espírito Santo são alguns dos topoi por onde já então vogava o filósofo da razão poética, deixando adivinhar a gesta gloriosa do Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões.  Uma pérola engastada no próximo volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante

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Uma resposta a UM INÉDITO DE AGOSTINHO DA SILVA PARA «CONFLUÊNCIAS», QUINTO VOLUME DOS «CADERNOS DE FILOSOFIA EXTRAVAGANTE»

  1. João Ferreira diz:

    Lendo o excerto de Agostinho, aqui publicado, vem-me uma ideia à cabeça que peço licença para apresentar, como hipótese, aos leitores de “Confluências”.
    Nos primeiros meses do ano de 1968, em Brasília, havia realmente uma conversa e um debate animado e frequente entre Agostinho, António Telmo e Eudoro de Sousa, do qual eu participava como ouvinte, sobre a Ilha dos Amores. O fulcro do debate prendia-se à interpretação da “insula divina” narrada e ficcionada por Camões no canto IX dos Lusíadas. Eudoro de Sousa via aí uma catábase. O desembarque dos “fortíssimos barões” lusitanos e a recepção a eles dada pelas belas “aquáticas donzelas” previamente preparadas por Cupido a mando de Vênus, sua mãe, tem o sentido de um tributo de louvor à “gente navegante” e o de uma entrada no reino da glória, que a deusa Giganteia se encarrega de celebrar com tuba clara(Lusíadas, Canto IX,45). Em relação à Ilha dos Amores, o António Telmo já desenvolvia nessa altura a tese do “desembarque dos maniqueus “na ilha namorada” e o fazia vendo aí uma forma gnóstica camoniana, como mais tarde fez ver no livreto “Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões” editado pela Guimarães Editores em 1982.
    Em relação ao Excerto do Agostinho, pergunto a mim mesmo se o breve e ainda obscuro texto de Agostinho não se referirá aos termos desse debate em torno da Ilha dos Amores. Em sua expressão maior, após o desembarque na ilha acontecem as várias cenas amorosas entre ninfas e navegantes narradas por Camões sob a forma de “caça”. Cupido é designado e aparelhado por Vênus para preparar as ninfas para a caça. Não é sem razão que ele é chamado de “filho frecheiro”(Canto IX, 25).Ele dispõe de um “arco ebúrneo”(IX,45) São as flechas que ele dispara em direção às ninfas que preparam o coração para o amor(IX,47). Os nomes mitológicos de Actéon e Diana são invocados para esta operação de caça(IX,26). Camões é muito claro e aberto na descrição desta caça: “Mas os fortes mancebos, que na praia punham os pés, de terra cobiçosos[…] de acharem caça agreste desejosos[…] (IX, 66). A caça, por outro lado, em qualquer nível que se exerça, requer uma taxinomia própria. Na Ilha dos Amores há uma taxinomia prevista por Camões. A base desta taxinomia são as regras do amor(IX 75-84). No meio de tudo, a caça como o amor frequentam os espaços que vão do fantástico ao verdadeiro (IX, 70). E mais do que tudo, na taxinomia, tem lugar a virtude, a justa medida. A taxinomia camoniana é clara:”Ponde na cobiça um freio duro(IX,93) e na ambição também[…] e no torpe e escuro vício da tirania[…] (Canto IX,93).
    Acredito que se não houver melhores razões para dar um sentido ao pequeno excerto de Agostinho, esta alusão à caça e á taxinomia narradas e pensadas por Camões no Canto IX dos Lusíadas, pode ser uma referência ao antigo debate que Agostinho e Telmo estabeleciam em 1968 sobre a Ilha dos Amores de Camões. Caça e taxinomia, que são, na verdade, duas coisas distintas mas complementares.
    Brasília, 5 de setembro de 2013
    João Ferreira

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