VANDALIZAR “RESTAURANDO”

Há alguns anos, conversando com uma senhora que se apresentava num cartão pessoal como “pintora de arte sacra” e dizia ter restaurado a imagem do Senhor das Chagas, tão querida dos cristãos do território arrábido e sesimbrense, ousei afirmar que seria bom um dia proceder a uma análise laboratorial dessa peça da arte nórdica do século XVI a fim de descobrir a sua policromia primitiva. Respondeu-me esboçando um sorriso que me lembrou o de Mefistófeles: “Não vale a pena; antes de o pintar, raspei-o até à madeira e tirei-lhe toda a tinta velha, pois estava muito mazinha…” Nem respondi e fugi o mais depressa que pude da localidade do concelho de Sintra onde me encontrava. Lavar orelhas a burros seria gastadeiro de sabão… e a minha revolta poderia nem dar bons resultados físicos…

O mesmo senti quando há menos tempo entrei na ermida do Senhor dos Aflitos, uma das chamadas “guaritas” do tão abandonado e mal-frequentado santuário de Nossa Senhora da Arrábida. Como se não bastasse o pechisbeque pseudo-religioso que por lá se instala em certos momentos do ano, deparei-me com a mui conhecida escultura de Cristo crucificado, de oficina italiana, oferecida por D. João V aos frades, integralmente repintada de cor de rosa e outras cores berrantes. Tal proeza, segundo me contaram, fora promovida por um agrupamento de escuteiros… Terá sido a boa acção do dia para aqueles vândalos e seus chefes…

Infelizmente, pessoas que não respeitam nem amam a expressão artística, continuam a confundir a conservação e o restauro de peças antigas com a remoção de policromias seculares (substituídas por repintes sem arte, frequentemente grotescos), com a invenção do que nunca existiu nas obras artísticas, com o “alindamento” ou a “renovação”.
Tal comportamento mostra apenas ignorância, mas uma ignorância atrevida que nada nem ninguém respeita, a começar pelos técnicos de conservação e restauro devidamente diplomados e terminando no património nacional, que vai destruindo com as suas “boas intenções”. Como se sabe pelo velho adágio, “de boas intenções está o inferno cheio”…
São tantos os exemplos por esse país fora que talvez esteja na hora de introduzir nas leis da justiça o “crime contra o património histórico e artístico”. Enquanto tal não chega, vale a pena lutar contra a falta de cultura artística, contra a ignorância e a ausência de ética – mesmo que esse percurso nos brinde com incompreensões e até insultos.

Ruy Ventura

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