RUY VENTURA À AGÊNCIA ECCLESIA:

arrabidaO verdadeiro poeta da Arrábida é Deus.

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A frase de Ruy Ventura suscitou ontem ao Professor João Ferreira, da Universidade de Brasília, que ali foi colega e convivente de Agostinho da Silva, Eudoro de Sousa, António Telmo, José Luís Conceição Silva ou Santiago Naud, entre outros, o comentário que, de seguida, gostosa e destacadamente, transcrevemos:

Vou pedir ao Ruy Ventura que me permita um comentário de simpatia à sua inspirada frase de que “O verdadeiro poeta da Arrábida é Deus”. Como acontece com Assis, Capri, Corcovado e outros raros espaços do orbe, a Arrábida é um topos especial. Um lugar que é muito mais que um espaço físico. É comum o visitante sentir ali uma coceirinha mística que teria vontade de exprimir da maneira mais própria. Vontade que na maior parte dos casos fica no balbucio ou no silêncio místico de contemplação, na admiração e no espanto. Vontade que termina por se reduzir a uma impressão indizível, ou a um estranhamento íntimo que não encontra na palavra uma sintaxe racional que exprima totalmente a impressão registrada na alma. Poetas de renome como Frei Agostinho da Cruz, António Manuel Couto Viana, Sebastião da Gama e outros cantaram a mística serra. Através da linguagem escrita deixaram impressões, canções, elegias, exclamações, saudades. Mas uma coisa é a retórica estilística com finitos giros oferecidos pela língua literária e comum e outra coisa é a realidade em si da Arrábida e a força íntima que dela se desprende. Neste caso, declarada a limitação da linguística verbal, resta pedir a intervenção da semiótica para que com base em sinais e indícios ela própria construa outro tipo de linguagem que melhor exprima a sensação ou a impressão mística com que a Arrábida nos enche o coração. Dentro desta perspectiva parece ser inteiramente pertinente lembrar e repetir a feliz frase de Ruy Ventura quando diz que “O verdadeiro poeta da Arrábida pe Deus”…Explicando melhor: o espectáculo da natureza e o encantamento da Arrábida é de tal ordem que não há poeta que tenha uma linguagem própria e capaz para exprimir as grandezas transcendentes da Arrábida. Esse espectáculo, convertido em linguagem, mostra que ali só há um poeta com dicção própria: seu Criador, Deus. Quando o franciscano S. Boaventura escreveu o ” Itinerarium mentis in Deum” (Itinerário da mente para Deus), em pleno século XIII, estava nos dizendo que o mundo é não apenas um espelho de Deus mas também um caminho cheio de sinais para o reconhecer como seu Autor. A mesma tese que Ruy Ventura nos está lembrando em bom português, ao exaltar a Arrábida como uma das maiores belezas de Portugal, ao dizer que:”O verdadeiro poeta da Arrábida é Deus.”
João Ferreira
Brasília,10 de setembro de 2013

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2 respostas a RUY VENTURA À AGÊNCIA ECCLESIA:

  1. João Ferreira diz:

    Vou pedir ao Ruy Ventura que me permita um comentário de simpatia à sua inspirada frase de que “O verdadeiro poeta da Arrábida é Deus”. Como acontece com Assis, Capri, Corcovado e outros raros espaços do orbe, a Arrábida é um topos especial. Um lugar que é muito mais que um espaço físico. É comum o visitante sentir ali uma coceirinha mística que teria vontade de exprimir da maneira mais própria. Vontade que na maior parte dos casos fica no balbucio ou no silêncio místico de contemplação, na admiração e no espanto. Vontade que termina por se reduzir a uma impressão indizível, ou a um estranhamento íntimo que não encontra na palavra uma sintaxe racional que exprima totalmente a impressão registrada na alma. Poetas de renome como Frei Agostinho da Cruz, António Manuel Couto Viana, Sebastião da Gama e outros cantaram a mística serra. Através da linguagem escrita deixaram impressões, canções, elegias, exclamações, saudades. Mas uma coisa é a retórica estilística com finitos giros oferecidos pela língua literária e comum e outra coisa é a realidade em si da Arrábida e a força íntima que dela se desprende. Neste caso, declarada a limitação da linguística verbal, resta pedir a intervenção da semiótica para que com base em sinais e indícios ela própria construa outro tipo de linguagem que melhor exprima a sensação ou a impressão mística com que a Arrábida nos enche o coração. Dentro desta perspectiva parece ser inteiramente pertinente lembrar e repetir a feliz frase de Ruy Ventura quando diz que “O verdadeiro poeta da Arrábida pe Deus”…Explicando melhor: o espectáculo da natureza e o encantamento da Arrábida é de tal ordem que não há poeta que tenha uma linguagem própria e capaz para exprimir as grandezas transcendentes da Arrábida. Esse espectáculo, convertido em linguagem, mostra que ali só há um poeta com dicção própria: seu Criador, Deus. Quando o franciscano S. Boaventura escreveu o ” Itinerarium mentis in Deum” (Itinerário da mente para Deus), em pleno século XIII, estava nos dizendo que o mundo é não apenas um espelho de Deus mas também um caminho cheio de sinais para o reconhecer como seu Autor. A mesma tese que Ruy Ventura nos está lembrando em bom português, ao exaltar a Arrábida como uma das maiores belezas de Portugal, ao dizer que:”O verdadeiro poeta da Arrábida é Deus.”
    João Ferreira
    Brasília,10 de setembro de 2013

  2. Ruy Ventura diz:

    Agradeço muito o comentário de João Ferreira, que aprofunda e esclarece o sentido da minha frase e boa parte do meu pensamento sobre a Arrábida, a sua sacralidade e o seu povoamento ritual e não-ritual. Bem haja!

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