NOS 50 ANOS DE «ARTE POÉTICA»: UMA RECENSÃO DE AVELINO ABRANTES , PARA «CONFLUÊNCIAS», 5.º VOLUME DOS «CADERNOS DE FILOSOFIA EXTRAVAGANTE»

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A par da recensão breve que Natércia Freire lhe dedicou na página de “Artes e Letras” do Diário de Notícias, a crítica, aliás bastante favorável, que Avelino Abrantes dedicou a Arte Poética traduz a única repercussão que o livro de estreia de António Telmo suscitou na imprensa portuguesaEste escrito, que agora transcrevemos, sairá a lume em «Confluências», quinto volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante, como parte integrante de um pequeno dossier comemorativo da efeméride relativa a Arte Poética

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«Arte Poética»[1]

Crítica de Avelino Abrantes

Estarão criadas entre nós as condições culturais propícias ao filosofar? Eis uma das perguntas, marginal embora, que nos ocorre formular, após a leitura de «Arte Poética», o surpreendente livro que António Telmo acaba de publicar.

Após um período, iniciado por Álvaro Ribeiro em 1943, com a publicação de «O Problema da Filosofia Portuguesa», em que à volta da Filosofia e do filosofar se travaram tão acérrimas quão acesas discussões, das quais, em relação a isso mesmo de que se tratava, pouca luz surgiu para esclarecimento de todos ou de cada um que pelo problema se interessaram, verifica-se que os pensadores da moderna geração consideram ultrapassada a problemática, e revelam já aquela serena inquietação espiritual, essencial a todo o processo do pensamento.

Ao formular a pergunta inicial e ao vislumbrar a consequente resposta, não significa esta que o ambiente cultural português seja hoje, mais do que ontem, propício, receptivo, sequer simpático, ao filosofar autêntico. Simplesmente a discussão, pois que de discussão se tratou, teve o mérito de mostrar aos que se interessaram pelo problema do ponto de vista da Filosofia, não só a situação cultural em que viviam, como ainda o seu carácter irreversível e intransmutável, pelo menos para uma exigida imediateidade.

Escrever sobre uma obra de pensamento tendo a intenção de ser quanto possível seu intérprete objectivo e imparcial é desde logo colocar-se, quem assim tenta escrever, em situação extremamente embaraçosa. A situação é embaraçosa em primeiro lugar porque sabe o intérprete avisado que nunca é possível objectivar o pensamento de outrem sem imediatamente o minorar ou deturpar até na sua significação porventura mais profunda; a situação é embaraçosa em segundo lugar porque na relação subjectiva que por isso se estabeleceu, dificilmente se poderá demarcar, separar ou discernir o que é pensamento próprio e filosofar alheio, o que da interpretação cabe ao intérprete ou a quem é suposto interpretado. As dificuldades mais se avolumam quando estamos perante um livro que, como o de António Telmo, «não obedece ao esquema construtivo habitual, não caminha das teses para as provas pelos argumentos».

Prevenido assim o leitor, encontrar-nos-emos já mais à vontade para afirmar que este nosso escrito sobre «Arte Poética» tentará desenvolver uma determinada linha de interpretação, aquela que consideramos filosoficamente mais actual e significativa.

Uma primeira perplexidade nos surgiu quando António Telmo sugere que se traduza «souvenir» por imagem e daí tira as correspondentes ilacções. Não ignora o leitor de Bergson que, muito embora a imagem possa ser, quer o modo como a matéria é apreendida pelo espírito, quer a forma mental do espírito, sempre ela surge para este numa relação mais remota e longínqua do que a imediata relação espiritual que «souvenir» supõe. Porque se sugere pois a tradução de «souvenir» por imagem? 

Eis que a perplexidade inicial se desvanece se atendermos ao que António Telmo considera homem natural, aquele para quem o centro é o corpo, aquele onde «o espírito opera num só plano de consciência». É para esta real, geral e comum situação do homem que o que para Bergson é «souvenir» surge apenas como imagem. Vemos assim eu tal como «Matéria e Memória» tem por ponto de partida o saber do senso comum, ou antes, a concepção das coisas tais quais são vistas pelo senso comum, também «Arte Poética» considera inicialmente o «souvenir» tal qual é para o homem comum ou, na linguagem de António Telmo, para o homem natural. Concretizando: Bergson começa por colocar o homem comum perante as coisas; António Telmo coloca o homem natural perante os «souvenirs». E se «Matéria e Memória» é um livro que estuda as relações da alma com o corpo, ou do espírito com a matéria, «Arte Poética» refere-se antes às relações da alma com o espírito ou do psíquico com o metapsíquico.

Porquê então «Arte Poética»?      

É que para António Telmo a literatura, e principalmente a poesia e o teatro, é expressão do sobrenatural, devendo entender-se aqui o termo a partir do natural que referimos a propósito da situação inicial do homem e não, como é de uso, numa relação transcendental. Revelam para o autor «as poéticas descidas aos infernos» o saber antigo análogo daquele que modernamente a filosofia de Bergson e a psicanálise de Freud tentam em novos e diferentes termos exprimir. Significam assim tais descidas, o conhecimento de si por si, do espírito pelo espírito, só possível no homem que, tendo deslocado o seu centro para um ponto outro que o corpo, apreende já os «souvenirs» não como imagens, mas como energias, forças, ideias, sentimentos. Mas este conhecimento de si por si pressupõe, por um lado, a descoberta da subjectividade, significa, por outro, a apreensão do espírito pelo espírito, o possível saber-se do ser singular como ser singular, pelo que, embora não explicitamente «Arte Poética» aponta para o problema da Liberdade.

Parece-nos extremamente adequado à compreensão do livro de António Telmo, o seguinte trecho de «O Pensamento e o Movente» que transcrevemos: «Mas a sonda que mergulhou até ao fundo do mar traz uma massa fluída que o sol logo disseca em grãos de areia sólidos e descontínuos. E a intuição da duração, quando exposta aos raios do entendimento, também logo se prende em conceitos fixos, distintos, imóveis. Na viva mobilidade das coisas o entendimento limita-se a demarcar estádios reais ou virtuais, a notar partidas e chegadas; é tudo o que importa ao pensamento do homem exercendo-se naturalmente. Mas a filosofia deveria ser um esforço para ultrapassar a condição humana»[2].  

Estão sugeridos os elementos necessários à compreensão de «Arte Poética», pelo que, seguindo um processo análogo ao que Bergson segue nos seus livros, podemos, resumindo, dizer: O homem natural apreende quer a matéria, quer o espírito, como imagens. De esta dupla relação tem ele de algum modo notícia na vigília e no sonho. Mas essa condição natural do homem pode ser ultrapassada: basta que desloque o seu centro habitual que é o corpo, para zonas mais profundas. Ao fazê-lo, adquire assim uma visão de si próprio e das coisas e um poder sobre elas que lhe permite até, morrendo artisticamente, vencer o que como mais anti-natural e absurdo lhe surge: a morte. A ciência que esta atitude pressupõe é tradicional, antiga e iniciática: a sua expressão pretérita foi-nos dada por poetas como Virgílio e Dante; a sua formulação actual e moderna encontra-se em Freud e Bergson.  

Esta nossa interpretação de «Arte Poética» é uma, entre as várias possíveis, que o ensaio de António Telmo permite. Que saibamos, até agora, não mereceu este livro qualquer referência, embora breve, na generalidade da crítica. Também sabemos como os nossos críticos se mostram perdulários na adjectivação de qualquer livro, o mais medíocre, de qualquer medíocre literato. Terminamos, como principiámos, senão por uma pergunta, talvez já por uma interrogação: que causas, que motivos, que razões estarão na origem, na intenção ou no princípio do processo, que sempre conduz a que uma espessa cortina de silêncio envolva a publicação das mais meritórias entre as obras de filosofia (e também de literatura) que em Portugal se escrevem?


[1] Nota dos Coordenadores – Trata-se de recensão publicada em Chave, 1.º ano, n.º 2, Maio de 1964.

[2] H. Bergson – «La pensée et le mouvant», pág. 218.

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