DA CARTA PREFACIAL A «BARROS BASTO: A MIRAGEM MARRANA»: OS LUGARES D’«A TERRA PROMETIDA», 2

barros_basto_a_miragem_marr_large“Teixeira de Pascoaes, como muito bem viu António Cândido Franco, criou o Marános para cifrar o Portugal Marrano contra aqueles traidores que teimam em ver a luz nas labaredas da Inquisição. Sabemos ambos a que traidores aludo. O cristão-novo é, na origem, um ser dividido, dividido entre a religião de seus pais que é obrigado a renegar e a religião cristã que o forçam a praticar. Desse ser dividido formaram-se vários subprodutos: aqueles que foram incapazes de suportar a tensão tornaram-se ou materialistas ateus ou materialistas católicos, esquecendo (no melhor dos casos) ou odiando (no pior) a religião de sangue; outros tornaram-se judeus secretos, praticando ao mesmo tempo as duas religiões, forçados a serem ao mesmo tempo valentes e hipócritas. Mais e diversos resultados são possíveis. Todavia, aquele que me parece decisivo é o dos que procuram os caminhos difíceis, não daquela dificuldade do marrano que pratica às ocultas a sua verdadeira religião, mas de outra mais profunda dificuldade. São os que o Alexandre Teixeira Mendes me ajudou a ver: os da Renascença Portuguesa, os da Faculdade de Letras de Leonardo Coimbra (com Artur Barros Basto o ensino da língua hebraica), por fim os filósofos portuenses exilados em Lisboa e os que se lhes seguiram, vindos de toda a parte.

Nestes, a tensão gera a inquietação e a inquietação é um princípio de movimento silogístico. A tensão é entre dois termos: o judaísmo e o cristianismo; ambos são sentidos como verdadeiros, não na ideia de um prolongar o outro, mas na do segundo ser a antítese do primeiro. Então, ou a inquietação se torna perpétua, sem saída para nada, gerando inacabadas oscilações de alma entre duas luzes ou se transforma no que verdadeiramente ela é, princípio de movimento para uma nova religião: aquela que cada cabalista da noite vê à luz do pensamento como a superior síntese dos dois sublimes contrários.

É nesta linha que devemos entender o Novo Deus Infante do Regresso ao Paraíso, a Igreja Lusitana de Sampaio Bruno e de Teixeira de Pascoaes, a Idade do Espírito Santo de António Quadros e de Agostinho da Silva.”

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Datada de 2007, a carta prefacial a Barros Basto – A Miragem Marrana, de Alexandre Teixeira Mendes, é um escrito absolutamente decisivo de António Telmo. Dando curso ao plano de trabalhos que Álvaro Ribeiro lhe assinara no esquema tópico da História de Portugal-Israel, o autor de Filosofia e Kabbalah nele estabelece uma sorte de tipologia do marranismo — fenómeno a que esclarece a essência –, para dela deduzir, em termos de vinculação, a gesta gloriosa da Escola Portuense. Tudo aquilo que o leitor pode desde já encontrar no excerto transcrito de A Terra Prometida, primeiro volume das Obras Completas de António Telmo.

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