DE RUY VENTURA, PARA «CONFLUÊNCIAS», 5.º VOLUME DOS «CADERNOS DE FILOSOFIA EXTRAVAGANTE»

arrábidaA comunicação de José Paulo Albuquerque (que aqui em breve pré-publicaremos por via da sua destinação aos próximos Cadernos de Filosofia Extravagante) ao colóquio “Do Amor”, realizado no passado sábado na Biblioteca Municipal de Sesimbra, motivou agora a Ruy Ventura o ensaio extravagante que se segue, tendo por dedicatário aquele seu amigo, então orador. Damo-lo na íntegra, tal qual aparecerá em Confluências, precedendo o ensaio do mesmo Ventura sobre a sacralização do território arrábido.  

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CRIPTOPÓRTICO

(um excerto)

         “Benedictus dominus Deus noster

qui dedit nobis signum

Fernando Pessoa in Mensagem

 

Quem me pôs na Arrábida, firmando um desejo alçado pela lembrança de frei Agostinho da Cruz e de Sebastião da Gama, foi o ministério (da educação).

Se retirar do ministério a letra N, vejo que na verdade apenas o mistério me atraiu. Aproximou-me do risco (monte, falésia, mas não só) que é viver nestas partes numinosas, onde a altitude e o abismo estão sempre presentes. Obrigou-me ao confronto com duas memórias, com o deserto e com a finisterra, com o signo doloroso e florido. Se Agostinho vem de augustus (sagrado, santo, venerável) e Sebastião do seu sinónimo grego, sebastós, então posso escrever que a sedução exercida pela serra e o movimento que gerou foram, na verdade, caminhos que Deus quis.

Exagero, decerto, mas no N que pode entrar e sair, transformando o mistério em ministério-serviço ou afirmando o ministério enquanto algo de misterioso, começo a ver o percurso que me levou ao sopé da Arrábida: – uma peregrinação (o peregrinus pode ser viajante, mas é sobretudo estrangeiro e noviço) a que sucedeu um (re)começo, seguido por novo e incessante movimento/devir.

Joguei um jogo quando, num concurso público, apostei em Sesimbra e Azeitão. Afinal, o jogo pode ser alea em latim – um conjunto de dados, mas também sorte, risco, perigo… A palavra pertence, assim, à mesma família de aleatório, que o N representa quando na matemática substitui um número desconhecido. Recordo por vezes que o meu apelido é irmão dos verbos invenire (descobrir, inventar, imaginar) e venire (vir, chegar). Significa, na língua em que São Jerónimo pôs as Escrituras, o futuro, o porvir. E, naquela que hoje chamamos nossa, é destino, sorte, acaso, risco, perigo e até felicidade (por acaso, o nome de minha mãe).

Talvez seja assim. Talvez não seja. Creio, todavia, que tudo veio da semente que recebi ao nascer ao lado de uma igreja do Espírito Santo, num hospital da Misericórdia. Aconteceu no dia do evangelista São João e comecei a jogar nesse momento, ou seja, a representar um papel ou a executar uma peça que eu próprio vou construindo, no usufruto da escuta, da leitura e da atenção.

*

Reparo que o N, no Génesis traduzido em português, substitui o beth original da primeira palavra do Pentateuco, bereshit – “no princípio”. É, portanto, o deíctico do começo, do princípio, do início. Na matemática é, todavia, um substituto simbólico do aleatório, do inquantificável, do indeterminado, ou seja, um número absoluto, que pode ser/conter qualquer algarismo. De certa forma, esta letra pode ser entendida como síntese, perfeita, da Divindade e do Sagrado – do Sem Fim, do Inabarcável, do Incognoscível, do Inominável. Está no início do Antigo Testamento em português. Deveria estar no começo do Novo (se o evangelho segundo São João estivesse no lugar que lhe compete, ou seja, abrindo a porta da Boa-Nova cristã), “No princípio era o Verbo”, o que de algum modo também se verificaria quer no original grego (“En arkhê ên o logos”) quer na tradução latina (“In principium erat Verbum”), onde o N é a segunda letra e, sobretudo, a primeira consoante. Na língua dos romanos, litúrgica ao longo de tantos séculos, o I inicial pode ser lido ainda como Y, letra que representa Jesus Cristo e o tetragrama sagrado, YHWH.

A letra N, que está também em natureza, Natal e nascimento, é o aleatório que vale pelo inquantificável. Quem diz N diz início, diz jogo, diz movimento, diz risco, perigo – e até ventura, esse futuro que inquieta por ser desconhecido. Geração, movimento, acção, devir, porvir…

Houve quem aproximasse a criação da ginástica, ou seja, dessa acção/movimento. Está certo. Nunca será inversão ou acrobacia gratuita. O gymnasium é muito mais do que um local de treino corporal; vale sobretudo como escola filosófica onde se praticam as virtudes e se eleva a alma. Daí que o encontro necessário à realização plena da Arte precise de uma travessia funâmbula sobre o abismo humano e mundano, que nunca será bem sucedida sem equilíbrio, harmonia e conciliação de contrários (afinal expressos no atributo luminoso e ponderado da Divindade, que o Da’wah associa à letra N). Sendo um jogo (jocus ou ludus) – ou seja, uma representação ou apresentação que não dispensa, nem poderia dispensar, a (auto)ironia e o descentramento –, a ginástica poética e filosófica tem de ser sobretudo um exercício, espiritual, de que resultará um diálogo incessante, onde Deus (Théos) age desdobrando-se – como sopro, sombra, fogo e húmus – no Theatro Anatomico (físico) do mundo.

(para o José Paulo Albuquerque)

Ruy Ventura

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