DE UMA ENTREVISTA A ANTÓNIA DE SOUSA: OS LUGARES D’«A TERRA PROMETIDA», 3

Brasília“E o que é para si a morte de Portugal?

«É a integração na CEE, é a reforma ortográfica, etc. Então não estamos a ser integrados na Europa?»

Ou a Europa em Portugal…

«O que pode acontecer é isso que diz e então Portugal será a cabeça do Quinto Império» Calou-se. Depois disse, com certa preocupação. «Há coisas que eu tenho prudência a dizer. E isto aparece aí de chofre, sem estar fundamentado. Aparece como afirmação gratuita… A coisa posta assim de que Portugal morreu é muito agradável para aqueles que estão cansados de Portugal e sempre consideraram Portugal um país inferior em relação à Europa, um país que teve a Inquisição e o obscurantismo, e que não consideram nunca a fidelidade dos Portugueses a uma ideia que não é europeia, que é a ideia de um Quinto Império e, portanto, de uma universalidade conseguida não à custa da anulação das diferenças, mas da harmonização e unificação de tudo o que é distinto e singular. A integração de Portugal na CEE só será positiva se for Portugal a tomar conta do processo, não vejo bem como. É mais simpática a ideia que Agostinho da Silva tem defendido de uma comunidade luso-afro-brasileira, mas sem reforma ortográfica.»

REFORMA ORTOGRÁFICA

Como Telmo tem feito estudos cabalísticos da Língua Portuguesa, quisemos saber porque é tão veementemente contra o acordo ortográfico. Diz:

«Nós entendemos a língua portuguesa falada pelos Brasileiros e eles também nos entendem perfeitamente. Não se percebe quais as vantagens da uniformização que se pretende. Há diferenças do brasileiro para o português e o africano, todas elas valiosas e que se exprimem linguisticamente em modos distintos. Os Ingleses e os Americanos não precisaram de uma uniformização para serem entendidos pelos outros povos. Por exemplo, a palavra fato. Para os Brasileiros é um facto. Não dizem fato, dizem terno. Como é que eles resolvem isto? Ao ceder aqui, o português decai, porque é obrigado a escrever e a falar de modo impróprio. Se quisessem a unificação, os Brasileiros é que teriam de modificar, porque o português é a origem, é a mãe, é a língua padrão.»

Vejamos, no sentido de se perceber melhor a sua oposição: a reforma ortográfica altera de alguma forma a gramática secreta da língua?

«A língua portuguesa tem-se modificado de forma natural e espontânea. As línguas não se fazem de fora. A prova é o esperanto, que não resultou. A Gramática Secreta entende que cada língua tem os seus fonemas próprios e esses fonemas reflectem um modo de estar no mundo. A reforma ortográfica não deve actuar nunca no plano dos fonemas.»

Contrapusemos-lhe uma frase de Manuel Bandeira, que Agostinho da Silva gosta muito de citar: a que o brasileiro é um português à solta. Não será o mesmo com a língua? E Telmo responde vivamente: «O brasileiro é o português relaxado. Nós somos mais clássicos. Há que conservar isso. Eles não têm o Camões, não têm o Pessoa, não têm o Pascoaes, não têm o Agostinho da Silva, onde atingimos o mais alto grau de liberdade poética. Veja só, por exemplo, a colocação dos pronomes. O brasileiro não mete o pronome dentro do verbo. Por exemplo, em lembrar-me-ei ou amar-te-ei. Este procedimento da língua portuguesa exprime o mais alto grau de liberdade. O verbo põe no seu coração o pronome, o nome de quem se fala. Isto é caso único nas línguas europeias!».”

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É outra das entrevistas de António Telmo recolhidas nas páginas de A Terra Prometida nunca antes reunidas em livro. Foi concedida ao Diário de Notícias (suplemento DN Magazine), conduzida pela jornalista Antónia de Sousa e publicada em 25 de Agosto de 1991. O trecho agora escolhido ilustra um dos pontos do pensamento de António Telmo em que a sua convergência com Agostinho da Silva se mostra inequívoca: aquilo a que hoje, actualisticamente, chamamos de Lusofonia.

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