DE ANTÓNIO TELMO, SOBRE «O BATELEUR»

antonio-telmoReacção minha, há 12 anos, ao que li hoje, aos 82, sobre um dos meus livros*

Tendo passado o limite da idade que Dante, na Divina Comédia, assinala como o termo da vida humana, julgo ter entrado no domínio daquela estéril serenidade ociosa que é o dos velhos que, antes desse termo, conheceram, tiveram e praticaram o dom da inventividade. Como, porém, sinto que é pecado não praticar a arte de escrever quando se foi educado nela por homens que a praticaram para além daquele termo e me vejo sem força íntima para inventar coisas novas, achei poder desviar-me de tais obstáculos reflectindo sobre aquilo que escrevi como quem se debruça sobre as águas do que passou procurando ver nelas a própria imagem renovada.

Começarei por Tomé Natanael. Muita gente me procurou em Estremoz no intuito de conhecer o antiquário de Estremoz que dei por meu Mestre de sabedoria em dois contos, – No Hades e O Bateleur. Tive de dizer amavelmente a essa gente que Tomé Natanael era uma invenção minha, que eu compus como uma personagem a partir de ter visto nesse nome um anagrama do meu. O que é intrigante é que, depois disso, eu mesmo pus-me a duvidar se Tomé Natanael não existiria, algures nas zonas luminosas do meu ser, como o meu próprio intelecto. É como se houvessem duas pessoas em mim, uma muito inteligente que é ele e outra mais ou menos estúpida que sou eu. É a escrever que uma se envolve com a outra e, então, tudo se segue de palavra em palavra como num sonho lúcido. Assim foi. Compus um e outro conto, combinando coisas antigas com coisas novas que se me foram mostrando à medida que ia escrevendo.

Mas, relendo agora o que designei mais tarde por O Antiquário de Estremoz, descubro no conto harmonias e sequências significativas de que não fui, durante a sua elaboração, minimamente consciente. Tudo ali bate certo. A Árvore das Sephiras está presente no quadro de Rafael e nos dois castiçais que eu e o antiquário figurávamos enquanto fixávamos o fundo da Loja. O conto é um organismo espiritual, concebido da conjunção de quem não sabe nada com quem sabe alguma coisa.

António Telmo
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*Com pedido de publicação, enviou António Telmo, para o blogue dos Cadernos de Filosofia Extravagante, em finais de Outubro de 2009, o texto, inédito, escrito aos 70 anos, que então, gostosamente, ali se publicou. Pode ser visto como uma reacção salutar às palavras que Ângelo Monteiro escreveu sobre O Bateleur, e que nesta página anteontem se recordou.

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