A APRESENTAÇÃO E O ALINHAMENTO DE «CONFLUÊNCIAS», 5.º VOLUME DOS «CADERNOS DE FILOSOFIA EXTRAVAGANTE»

cadernos (1)Ao fim de três anos, tudo corria sobre rodas. Havia uma pequena contrariedade apenas: a dos problemas de consciência que me levantava a nossa ligação simultânea a duas orientações que, à primeira vista, pareciam inconciliáveis. 

Álvaro Ribeiro guardava um silêncio enigmático sobre o desvio de alguns dos seus discípulos; contávamos com a compreensão do José Marinho que, aliás, fora quem nos introduzira; de outras personalidades do grupo da filosofia portuguesa vieram teimosos ataques, que nos ajudaram a aperfeiçoar a virtude da prudência.

No que me diz respeito, Álvaro Ribeiro era para mim, e é, a filosofia portuguesa. Através dele, se mais não andei foi porque não soube seguir as indicações da Santa Filosofia. É bom que, no entanto, diga o que em mim nasceu para que pudesse encontrá-lo.

                                                                                                                 António Telmo in Contos

No excerto do conto “Trabalho de Grupo” que vimos de transcrever em epígrafe, António Telmo dá-nos conta do confronto, presumivelmente conflituante, entre duas orientações espirituais bem distintas, e que muito diversamente o influenciaram: a recebida de seu mestre Álvaro Ribeiro, pela dúplice matriz – brunina e leonardina – em que se ramifica o tronco da árvore frondosa da filosofia portuguesa; e a experimentada com o poeta austríaco Max Hölzer, nas palavras do filósofo de Arte Poética um ocultista “transmissor do pensamento esotérico de Gurdjieff”. O carácter decisivo de uma tal confrontação surgirá porventura aclarado ao leitor no brevíssimo excerto de um escrito télmico que a seguir se lhe propõe.

Claro que, quanto ao primeiro daqueles magistérios, quem diz Álvaro Ribeiro poderá também, sem correr o perigo de errar, dizer José Marinho. Mas quando pensamos – e é o próprio Telmo quem acima no-lo assinala – que foi o mesmo Marinho a introduzi-lo a Hölzer, logo percebemos quão matizado e complexo pode ser o mosaico em que os nossos passos se inscrevem.

Daí que, neste quinto volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante, tenhamos querido surpreender as influências exercidas por mestres (nacionais e estrangeiros) e por condiscípulos em António Telmo, e também as que este exerceu nos condiscípulos, nos discípulos e nos amigos e, de um modo geral, em todos aqueles que na sua obra, de algum modo, colheram benefícios e contributos. Na convergência como na divergência, sob a forma de ensaio, de poema ou de testemunho, pretendeu-se, sobretudo, surpreender diálogos, no ponto de tangência em que as vozes afluem. Posto que inexausto o inventário, revelou-se o resultado francamente animador – e a este propósito importa começar por afirmar como uma excepcional conjuntura de circunstâncias se conjurou no sucesso da empresa.

Antes de mais, o trabalho de pesquisa e inventariação que, sobretudo a crédito do projecto das suas Obras Completas, tem vindo a ser desenvolvido no espólio de António Telmo, e que agora permite, com a publicação de dois escritos marcantes (um dos quais sobre Natália Correia, que nos deixou há duas décadas), esclarecer um pouco mais a forte influência do cripto-judaísmo alvarino na formação do pensamento télmico. Depois, o concurso de várias efemérides, próximas ou actuais – e entre estas, para além da respeitante a Natália, importará destacar a comemoração do vigésimo aniversário da morte de António Quadros, amigo e condiscípulo de Telmo no magistério de Álvaro e Marinho. Foi, pelo que ao Círculo António Telmo diz respeito, uma homenagem tão sentida quão efectiva, com a realização, a 29 de Junho, na sua sede, a Casa do Bispo, em Sesimbra, de um grande colóquio – “António Quadros, 20 anos depois” –, que contou com o apoio da Fundação António Quadros, à semelhança do que já em 23 de Fevereiro sucedera com a ocorrência, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, do Colóquio “António Telmo, António Quadros e a História de Portugal”.

Com respeito ao primeiro daqueles encontros publicam-se, neste volume, em secção autónoma, algumas das comunicações então apresentadas, do mesmo passo que, graças a uma já proverbial conjugação de esforços entre o Círculo e a Fundação, se dá à estampa toda a correspondência conhecida trocada entre António Quadros e António Telmo. Trata-se de um documento ímpar e imprescindível para o conhecimento destes dois vultos e das suas obras, e que havia já merecido um detido estudo a António Quadros Ferro, aliás publicado em 2011 em António Telmo, terceiro volume desta publicação.

Por outro lado, e como forma de celebrar os 120 anos do nascimento de Almada Negreiros, faz-se publicar o texto, ainda inédito, de apresentação de O Bateleur, lido pelo seu autor, Afonso Botelho – outro dos amigos e condiscípulos do filósofo –, na sessão de lançamento deste livro de António Telmo, que teve lugar no dia 10 de Dezembro de 1992, na Galeria Nasoni, em Lisboa.

E se o cinquentenário de Arte Poética, título inaugural do cânone télmico, nos suscitou, por si só, a abertura de uma secção onde se reúnem duas cartas inéditas (de Mário Saa e Rose Marie Mossé-Bastide) e duas recensões hoje esquecidas (de Natércia Freire e Avelino Abrantes), que avivam o trilho já encetado com a saída a lume, em anteriores Cadernos, de uma carta de Álvaro Ribeiro, dedicatário da obra, sobre a Arte Poética, para o discípulo seu autor, a aproximação da data – 3 de Abril de 2014 – em que se assinalam os 20 anos da morte de Agostinho da Silva justifica, desde já, a publicação de um escrito inédito, do período brasileiro, do autor de Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa, presumível prefácio para um livro ignoto de António Telmo, a que hoje se perdeu o paradeiro. Mas a relevância excepcional da “entente” télmico-agostiniana, comprovada pelos trajectos biográficos, selada por laços de compadrio – restituindo-se aqui a palavra à nobreza das suas melhores acepções –, e consagrada pela comum vinculação dos dois filósofos à terra marítima de Sesimbra, poderá ainda ser aferida pelas amplas comemorações agostinianas que o Círculo António Telmo já programou e prepara para 2014, em parceria, aliás costumada, com o MIL: Movimento Internacional Lusófono e a revista NOVA ÁGUIA: um grande colóquio sobre Agostinho da Silva, na Casa do Bispo, em 5 de Abril; ainda nesta Casa, e a inaugurar nesse mesmo dia, uma exposição biobibliográfica e documental, O Regresso dos Mestres: de Granada a Sesimbra, António Telmo e Agostinho da Silva; a publicação, na NOVA ÁGUIA, da correspondência de Agostinho para Telmo, conjunto de cerca de meia centena de cartas, que sairá a lume anotado e comentado; e a edição, na Colecção NOVA ÁGUIA, do livro Agostinho da Silva em Sesimbra, da autoria de Pedro Martins e António Reis Marques.

Posto isto, saliente-se que as confluências de – e com – António Telmo vão muito além dos nomes já aqui assinalados, no leque vasto e variegado em que se abre a abordagem multiforme das colaborações reunidas: Pessoa, Régio, Camões, Pascoaes, Teixeira Rego, Leonardo (directa ou mediatamente, à vista do notável estudo de Pinharanda Gomes que publicamos), Meyrink, Guénon, Evola e tantos outros, num universo que se revela em miríade – confira-se, a este propósito, o precioso testemunho da lavra de João Pedro Secca –, e que urge receber e guardar como o melhor dos tesouros.

Retomando, do volume anterior, as “Circulações” como a partição adequada às colaborações que de todo extravasam a opcional directiva temática desta publicação, importará, por último, frisar o surgimento de uma secção dedicada a “Sesimbra, o lugar onde se não morre”, em que um estudo surpreendente de Ruy Ventura sobre a sacralização do território arrábido repõe Sesimbra como o centro espiritual de toda uma região que, de ermida a ermida, de Memória a Memória, entre o Espichel e a Serra-Mãe, se ergue ou se abre sobre o mar azul e ante o alto Sol meridional, esse Sul sidéreo que Telmo e Agostinho aqui esperançadamente contemplaram.

Pedro Martins e Renato Epifânio

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Apresentação, Pedro Martins e Renato Epifânio

O quarto inimigo do guerreiro, António Telmo

Confluências

História de Portugal-Israel, António Telmo / Álvaro Ribeiro

Natália Correia, António Telmo

Sobre um livro de António Telmo, Agostinho da Silva

Sobre O Bateleur, de António Telmo, Afonso Botelho

A leitura de “O Criacionismo” por quatro discípulos de Leonardo Coimbra, J. Pinharanda Gomes

Carta a Pedro Martins a propósito de António Telmo, Paulo Samuel

António Telmo: a visão esotérica do pensamento português, Miguel Real

Desde o pórtico de entrada da História Secreta de Portugal de António Telmo, Eduardo Aroso

António Telmo, Avelino de Sousa

Encontros com escritores notáveis: Alguns apontamentos sobre as fontes literárias de António Telmo a partir de notas das tertúlias, João Pedro Secca

Meyrink e «O Golem», António Carlos Carvalho

António Telmo e Teixeira de Pascoaes: sete notas e uma oitava, acima, para uma kabbalah pós-atlântica, Pedro Martins

Amar mais a hipótese do que a verdade – Teixeira Rego: filósofo esquecido, filósofo desconhecido, Rui Lopo

O Teatro de António Telmo. «A Verdade do AMOR». Fecundação pela palavra., José P. R. de Albuquerque

Tomé Natanael, Carlos Aurélio

As Encruzilhadas de Deus de José Régio, Eduardo Aroso

Oculto Excesso, Samuel Dimas

Sobre André Coyné, António Cândido Franco

Circulações

Duas figuras reais portuguesas no imaginário de Mário Cesariny, António Cândido Franco

Dois poemas inéditos, Manuel Silva-Terra

Consciência separativa versus Consciência unitiva, Carminda H. Proença

O livro do coração de Portugal, Teresa David

Mar e céu, Isabel Xavier

Purificação, Samuel Dimas

Alguns poemas de Francisco Gálvez (tradução de Ruy Ventura)

Sobre Arte Poética, 50 anos depois

Carta a António Telmo sobre a sua Arte Poética, Mário Saa

Carta para António Telmo, Rose Marie Mossé-Bastide

Inventário da Semana: [Sobre Arte Poética, de António Telmo], Natércia Freire

«Arte Poética», Crítica de Avelino Abrantes

Sesimbra, o lugar onde se não morre

Criptopórtico (um excerto), Ruy Ventura

O Eixo e a Árvore: notas sobre a sacralização do território arrábido, Ruy Ventura

O Bispo da Casa, Joaquim Domingues

António Quadros, 20 anos depois

Depoimento, António Quadros Ferro

Deus e os Homens — interrogação à História, António Carlos Carvalho

António Quadros e a Filosofia Portuguesa: breve apontamento, Renato Epifânio

António Quadros e Sampaio Bruno: elementos para uma teleologia escatológica, Samuel Dimas

«Valete, Fratres»: Da Ordem do Templo à Ordem de Cristo, José Almeida

António Quadros, Jesus Carlos

 Correspondência inédita

Cartas para António Telmo, António Quadros . Cartas para António Quadros, António Telmo

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