DE UM DEPOIMENTO CONTRA A REGIONALIZAÇÃO: OS LUGARES D’«A TERRA PROMETIDA», 5

ATelmo_1995“Muito boa gente, apesar das evidências, ainda dá Portugal como não tendo morrido, no que terá razão contra essas evidências, se em vez de história pusermos profecia.

O movimento de resistência ao intento de reduzir o País a regiões, isto é, de dividir Portugal ergueu-se contra a corrente que o arrasta para o abismo. No processo de decomposição da Pátria, o que foi no seu início como Norte e Sul separados em Cristianismo e Islamismo tende a aparecer no fim, tão certo é que, no termo de cada ciclo se repete, embora em modo inverso, o que foi no começo. Por isso, evitar hoje a separação parece um verdadeiro milagre. O que se conseguiu não foi, como a muitos se afigura, manter o que já era uno; foi dar ao povo consciência dessa unidade pelo livre exercício do voto.

O Norte, entendendo por Norte o que vem da Galiza até ao Tejo, funciona, no Portugal indiviso como o princípio activo (o yang) e o Sul como o princípio passivo (o yin). Isto poderia ser demonstrado por meio de um sistema de oposições: montanha-planície; pluviosidade e secura; direcção dos rios, etc. O mesmo se dá no plano antropológico. Não devemos, porém, ver as oposições como antíteses, mas sim como termos complementares.

Um dos modos mais apropriados de definir o que é a morte consiste em dá-la como a separação do yang e do yin. “Morrer, mas devagar” tal foi o lema que nos deixou el-rei D. Sebastião antes de “desaparecer”. Eu não sei se o movimento chefiado pelo Professor Ernâni Lopes teve como base do seu trabalho este lema; antes me parece que partiu da ideia de que o País está bem vivo e que era preciso evitar que a regionalização o matasse. É, no entanto, bom que se tenha presente o ensino daquele por quem, sabendo-o ou não o sabendo, todos esperamos. Se morrermos devagar, teremos ocasião e tempo para preparar a nossa ressurreição. Compreende-se agora porque, há pouco, escrevi que haverá razão contra as evidências, se em vez de história se puser profecia.”

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Mais do que esquecido, é um escrito hoje praticamente desconhecido, porém riquíssimo, o “Depoimento” de António Telmo contra a regionalização, que viria a integrar o volume Uma Experiência Única: 1998, MPU – Um movimento cívico contra a Regionalização”, coordenado por Ernâni Lopes e saído a lume em 2001. A transcrição agora feita cinge-se aos parágrafos iniciais; o texto integral poderá, ainda este ano, ser lido em A Terra Prometida, primeiro volume das Obras Completas de António Telmo.

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